sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015
É necessário ousadia para inaugurar um novo ciclo de transformações sociais
Por Laura Sito e Guilherme Morlin
Em 10 de fevereiro de 1980 nasceu
uma ferramenta capaz de dar voz a classe trabalhadora deste país, capaz de ser
síntese dos anseios por democracia e igualdade. Nascimento chancelado nas lutas
dos movimentos sociais, nas grandes greves, na luta por reforma agrária, na
luta por vida digna na cidade.
Por onde governou, o Partido dos
Trabalhadores fez gestões transformadoras e sua chegada à Presidência da República
não poderia ter sido diferente. Ao longo dos seus 35 anos mudou radicalmente a
qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras deste país. Sem dúvidas
somos até aqui um dos projetos de esquerda de maior sucesso na história.
Contudo, chegamos ao nosso quarto
mandato à frente da Presidência da República com desafios grandiosos.
Grandiosos frente ao nosso programa, à situação econômica e política do país e
frente ao patrimônio político até aqui construído por nós.
Considerando as opções políticas
do governo Dilma em sua composição, vemos tristes acenos aos setores
conservadores em detrimento dos trabalhadores, tendo como maior símbolo a equipe
econômica. Essas opções alimentam o sentimento de desconfiança daqueles que
sustentaram nosso projeto nas ruas antes e, especialmente, durante as eleições.
Vivemos hoje um esgotamento do
pacto político e econômico – o lulismo – que permitiu profundas transformações
durante nossos três mandatos à frente da Presidência da Republica. A manutenção
do pacto conservador realizado com o capital financeiro, retratado no tripé
macroeconômico, e o curto horizonte estratégico do governo impediram a
constituição de um novo modelo de crescimento com inclusão social. O estabelecimento
de uma nova estratégia de desenvolvimento é cabal, pois no contexto de crise
econômica internacional desapareceram as condições externas favoráveis que
tornaram o lulismo possível.
O mercado interno ampliado pela
ascendente classe trabalhadora e os incentivos fornecidos pelo governo sustentaram
o nível de emprego, mas não geraram nova dinâmica de crescimento. O resultado
já foi percebido nos últimos dois anos, seja pela estagnação dos rendimentos
reais dos trabalhadores seja pelo arrefecimento do ritmo de queda da
desigualdade. Esses indicadores, conquistas mais fundamentais do ciclo de
governos populares, correm hoje grave risco de reversão.
As medidas econômicas
conservadoras tomadas nesse início de mandato de Dilma não respondem a esses
desafios, uma vez que aumentam o peso da carga tributária sobre os
trabalhadores e a classe média, enquanto seguem preservando os mais ricos.
O resultado destas opções é cada
vez mais sentido pelo conjunto da classe trabalhadora, à qual não são
oferecidos os sinais necessários. Enquanto prioriza um ajuste “pró-mercado”, o
governo se afasta do programa apresentado nas eleições e trai a confiança dos
únicos dispostos a defender o governo em circunstâncias bem adversas – e na rua
se preciso.
A eleição para mesa diretora da Câmara
Federal foi um demonstrativo do fortalecimento das forças conservadoras e
fisiológicas nas eleições de 2014. Assim como deverá servir como um alerta para
a necessidade de se repensar a aliança que dá “sustentação” ao governo.
A vitória de Eduardo Cunha é um
entrave para os avanços das reformas estruturantes do Estado brasileiro. A
burguesia nacional, que teve grandes dificuldades de se organizar durante a
última década, inaugura um novo período onde se apresenta organizada
estrategicamente e consensuada entre seus pares, criando condições para pautar
a agenda política do País.
Nessa conjuntura, não podemos
permitir que um programa conservador capitalize a insatisfação da população ou
se apresente como solução para seus anseios. Precisamos defender o programa
político que empenhamos durante o processo eleitoral, confrontando a direita
ideologicamente e, ao mesmo tempo, disputando os rumos do Governo Dilma.
É necessário acumular força, constituir
uma frente de esquerda que aglutine forças políticas, sociais e culturais
comprometidas com as reformas estruturantes do Estado brasileiro. Para isso,
será crucial recuperar a capacidade de mobilização e de diálogo com novas
pautas da população. Além disso, nosso discurso e prática devem reforçar os
elementos de reformismo radical, que são oportunos ao período de crise.
Para isso, o 5º Congresso do PT
será um momento especial, pois é fundamental que se debata a atualização de
nossa estratégia e se repense as estruturas deste partido. É urgente o processo
de desburocratização para que nos abramos para as formas novas e tradicionais de
organização, garantindo a oxigenação necessária para enfrentar os desafios
colocados a nossa história.
Temos pouco tempo e uma
oportunidade histórica.
Laura Sito é membro da Executiva PT/RS e Diretório Nacional do PT, Graduanda de
Jornalismo UFRGS
Guilherme Morlin é Mestrando em Economia pelo IE/UFRJ
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
segunda-feira, 8 de dezembro de 2014
Assumir nossos crespos e afirmar a nossa identidade
O processo chamado de "transição capilar" refere-se a decisão de abandonar os processos químicos e deixar o cabelo
crescer naturalmente. Pode ser um processo gradual ou radical, que é
quando opta-se por cortar toda parte com química do cabelo.
Nós,
mulheres negras, crescemos fora dos padrões de beleza valorizados no
conjunto da sociedade. Nosso cabelo é descrito como "ruim", os traços do
nosso rosto são tidos como feio e sobre o nosso corpo não preciso nem
falar. Portanto, assumir nossa negritude é um ato político de
valorização da nossa identidade, cultura e disputa dos padrões de beleza
estabelecidos.
Obviamente isto não é novo, o movimento "Black Power" nasceu nos anos 60 nos Estados Unidos como um movimento de afirmação da cultura negra. De lá pra cá muita coisa mudou, mas as estruturas racializadas na sociedade permanecem iguais.
Obviamente isto não é novo, o movimento "Black Power" nasceu nos anos 60 nos Estados Unidos como um movimento de afirmação da cultura negra. De lá pra cá muita coisa mudou, mas as estruturas racializadas na sociedade permanecem iguais.
Fazia algum
tempo que eu queria passar por este processo, mas sempre optava por
continuar com os produtos químicos para que pudessem deixar meu cabelo
com um melhor crescimento e aspecto. Até me dar conta que é um ciclo vicioso, tratar quimicamente, dar fragilidade aos fios e resultar em quebras.
Nos últimos meses fiz a opção de cortar toda a parte com química e
deixar os cabelos crescerem naturalmente. Não é um processo fácil, é
necessário ter paciência com o tempo até que o cabelo possa estar com um
tamanho satisfatório.
O sentimento que mais nutro neste
processo é a sensação de liberdade, de poder assumir os fios e com eles afirmar minha cultura e minha identidade!
Deixo
aqui um poema da grande poetisa peruana Victoria Santa Cruz, "Me
gritaron negra!", um poema que mostra a perversidade do racismo
transformada em afirmação da identidade:Me gritaram negra!
Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Como sete anos?!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
"Sou por acaso negra?" - me disse
SIM!
"O que é isso, ser negra?"
Negra!
Eu não conhecia a verdade triste que isso ocultava.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus grossos lábios
e olhei apequenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi...
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava carregando às costas
minha carga pesarosa
E como pesava!
Alisei meu cabelo,
pus pó-de-arroz na cara,
e em minhas entranhas retumbava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Neeegra!
[ prestes a cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí?
E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Sou negra!
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles
que para evitar - segundo eles -
que para evitarmos algum dissabor
Chamam os negros de gente de cor
E de que cor?!
NEGRO
E como soa lindo!
NEGRO
E olha esse ritmo!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO
Por fim
Por fim compreendi
POR FIM
Ja não retrocedo
POR FIM
Avanço segura
POR FIM
E bendigo os céus porque quis Deus
que negro retinto fosse minha cor
E agora compreendi
POR FIM
Tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!
sábado, 21 de junho de 2014
O meu desafio em oPTar por um partido político
Acompanhando a caminhada pela implantação do sistema de cotas na
UFRGS, em 2005, comecei a entender a complexidade da luta política. Nesta
caminhada aprendi a ver quem são nossos inimigos e a importância da unidade em
torno da luta por igualdade e justiça. Lá aprendi também a grandiosidade e a
importância dos movimentos sociais, assim como a centralidade dos partidos
políticos.
Enquanto vivenciava isso a crise iniciada na reforma da
previdência, ampliada na saída de setores do PT para formar um novo partido, se
tornava mais intensa com as denuncias do mensalão. Eram avassaladoras as
contradições, ainda mais para alguém tão jovem.
Em meio a esse processo decidi ingressar no Colégio Júlio de
Castilhos, o Julinho, lá minha vida foi traçada.
Quando cheguei no Julinho, em 2006, me deparei com o grêmio
estudantil mais importante do estado sendo conduzido por estudantes ligados ao
PP e PMDB. Algo completamente fora da natureza histórica do movimento
estudantil do Julinho. Naquele mesmo ano tivemos eleições presidenciais e para
os governos estaduais, reelegemos Lula com a força do povo. Mas no Rio Grande
do Sul, por um “acidente” da direita gaúcha, Yeda se tornou governadora. Nós
estudantes secundaristas já estávamos mobilizados, sabíamos que viria um
processo de muito enfrentamento e assim foi.
No fim daquele ano tivemos a oportunidade de trocar a
direção do grêmio estudantil, tivemos uma chapa ampla, mas perdemos as
eleições.
As mobilizações em defesa da educação e a resistência à
cartilha neoliberal do governo Yeda me faziam ter mais certeza da importância
de se ter lado. Assim como ficava mais clara a importância de estarmos
organizados coletivamente para mudar o mundo.
No ano seguinte, ano que me tornaria presidente do Grêmio do
Julinho, fiz a opção de deixar ser apenas uma petista para me tornar do PT.
Optei por me filiar a um projeto político que mudava o país, que organizava os
trabalhadores e acolhia os movimentos sociais. Carregava comigo a certeza que
não poderia estar em outro lugar!
quinta-feira, 19 de junho de 2014
Pode uma jovem negra ser deputada?
Faz algum tempo tenho
tido vontade de relatar aqui a experiência que estamos vivenciando, mas tenho
tido pouco tempo para escrever. Alguns meses atrás decidimos que nossa organização
(PT Amplo – tendência interna do PT) deveria ter uma candidatura capaz de
dialogar com os diversos setores dos movimentos sociais, uma candidatura jovem,
apresentando uma pauta política capaz de provocar debates fundamentais para o
aprofundamento das mudanças promovidas pelo nosso projeto político. Quando falo
nós, cito um coletivo que compreende a centralidade da disputa de
valores na sociedade.
Falando pode parecer
simples, mas é uma tarefa ousada. Mas isso não é um problema, pois coragem é
algo que realmente não nos falta. Ousamos porque não aceitamos dissociar o
processo eleitoral dos nossos sonhos, pois a cada passo que damos somos desafiados
a superar este modelo de sociedade. Para nós um mandato deve ser um
instrumento, uma ferramenta para fazer as disputas necessárias.
É inegável que nestes 12 anos os governos do PT tenham mudado a cara
do Brasil. Vivemos em 2014 um outro país comparado ao que encontramos em
2002. Provavelmente muitos de vocês que estão lendo são frutos das políticas
sociais que qualificaram radicalmente a qualidade de vida dos trabalhadores e
trabalhadoras.
Eu inclusive, minha mãe é empregada doméstica e criou suas duas filhas
sendo mãe solteira. Ela teve nesta década a oportunidade de ver suas duas
filhas entrando na Universidade pública. Minha irmã, Luanda, já está concluindo seu doutorado
na Unicamp (Campinas-SP) e eu estou na segunda parte do meu curso de jornalismo na
UFRGS.
Temos que reivincar com orgulho essa era de transformações, mas é
fundamental que apresentemos uma nova agenda. É urgente debatermos o futuro!
Por isso falamos de sonhos, porque é necessários rompermos a lógica da
reprodução da ordem vigente, falamos em sonhos para não perdermos a nossa
capacidade critica e contestadora que nos faz avançar. Para expressar isso, escolhemos
uma jovem negra para disputar uma cadeira para Assembleia Legislativa do Rio
Grande do sul, um estado que nunca teve uma mulher negra como deputada.
Sabemos
que o rosto do nosso projeto se assemelha ao de milhares de novos
atores sociais impulsionados pela década de mudanças no Brasil. Portanto, é
especialmente com estes que nos desafiamos a dialogar.
A caminhada da disputa eleitoral não é fácil, o poder econômico encolhe a
disputa. Com isso acabamos tendo um parlamento tão monocromático, masculino e
das classes sociais mais favorecidas. Mas para aqueles que se dispõe a mudar o
mundo, o que é enfrentar esta disputa?
terça-feira, 13 de maio de 2014
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