Por Laura Sito e Guilherme Morlin
Em 10 de fevereiro de 1980 nasceu
uma ferramenta capaz de dar voz a classe trabalhadora deste país, capaz de ser
síntese dos anseios por democracia e igualdade. Nascimento chancelado nas lutas
dos movimentos sociais, nas grandes greves, na luta por reforma agrária, na
luta por vida digna na cidade.
Por onde governou, o Partido dos
Trabalhadores fez gestões transformadoras e sua chegada à Presidência da República
não poderia ter sido diferente. Ao longo dos seus 35 anos mudou radicalmente a
qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras deste país. Sem dúvidas
somos até aqui um dos projetos de esquerda de maior sucesso na história.
Contudo, chegamos ao nosso quarto
mandato à frente da Presidência da República com desafios grandiosos.
Grandiosos frente ao nosso programa, à situação econômica e política do país e
frente ao patrimônio político até aqui construído por nós.
Considerando as opções políticas
do governo Dilma em sua composição, vemos tristes acenos aos setores
conservadores em detrimento dos trabalhadores, tendo como maior símbolo a equipe
econômica. Essas opções alimentam o sentimento de desconfiança daqueles que
sustentaram nosso projeto nas ruas antes e, especialmente, durante as eleições.
Vivemos hoje um esgotamento do
pacto político e econômico – o lulismo – que permitiu profundas transformações
durante nossos três mandatos à frente da Presidência da Republica. A manutenção
do pacto conservador realizado com o capital financeiro, retratado no tripé
macroeconômico, e o curto horizonte estratégico do governo impediram a
constituição de um novo modelo de crescimento com inclusão social. O estabelecimento
de uma nova estratégia de desenvolvimento é cabal, pois no contexto de crise
econômica internacional desapareceram as condições externas favoráveis que
tornaram o lulismo possível.
O mercado interno ampliado pela
ascendente classe trabalhadora e os incentivos fornecidos pelo governo sustentaram
o nível de emprego, mas não geraram nova dinâmica de crescimento. O resultado
já foi percebido nos últimos dois anos, seja pela estagnação dos rendimentos
reais dos trabalhadores seja pelo arrefecimento do ritmo de queda da
desigualdade. Esses indicadores, conquistas mais fundamentais do ciclo de
governos populares, correm hoje grave risco de reversão.
As medidas econômicas
conservadoras tomadas nesse início de mandato de Dilma não respondem a esses
desafios, uma vez que aumentam o peso da carga tributária sobre os
trabalhadores e a classe média, enquanto seguem preservando os mais ricos.
O resultado destas opções é cada
vez mais sentido pelo conjunto da classe trabalhadora, à qual não são
oferecidos os sinais necessários. Enquanto prioriza um ajuste “pró-mercado”, o
governo se afasta do programa apresentado nas eleições e trai a confiança dos
únicos dispostos a defender o governo em circunstâncias bem adversas – e na rua
se preciso.
A eleição para mesa diretora da Câmara
Federal foi um demonstrativo do fortalecimento das forças conservadoras e
fisiológicas nas eleições de 2014. Assim como deverá servir como um alerta para
a necessidade de se repensar a aliança que dá “sustentação” ao governo.
A vitória de Eduardo Cunha é um
entrave para os avanços das reformas estruturantes do Estado brasileiro. A
burguesia nacional, que teve grandes dificuldades de se organizar durante a
última década, inaugura um novo período onde se apresenta organizada
estrategicamente e consensuada entre seus pares, criando condições para pautar
a agenda política do País.
Nessa conjuntura, não podemos
permitir que um programa conservador capitalize a insatisfação da população ou
se apresente como solução para seus anseios. Precisamos defender o programa
político que empenhamos durante o processo eleitoral, confrontando a direita
ideologicamente e, ao mesmo tempo, disputando os rumos do Governo Dilma.
É necessário acumular força, constituir
uma frente de esquerda que aglutine forças políticas, sociais e culturais
comprometidas com as reformas estruturantes do Estado brasileiro. Para isso,
será crucial recuperar a capacidade de mobilização e de diálogo com novas
pautas da população. Além disso, nosso discurso e prática devem reforçar os
elementos de reformismo radical, que são oportunos ao período de crise.
Para isso, o 5º Congresso do PT
será um momento especial, pois é fundamental que se debata a atualização de
nossa estratégia e se repense as estruturas deste partido. É urgente o processo
de desburocratização para que nos abramos para as formas novas e tradicionais de
organização, garantindo a oxigenação necessária para enfrentar os desafios
colocados a nossa história.
Temos pouco tempo e uma
oportunidade histórica.
Laura Sito é membro da Executiva PT/RS e Diretório Nacional do PT, Graduanda de
Jornalismo UFRGS
Guilherme Morlin é Mestrando em Economia pelo IE/UFRJ
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