domingo, 8 de novembro de 2015

Trabalho doméstico: a face hipócrita da classe média brasileira






Talvez estes olhos não sejam similares aos que lotaram as salas de cinema pelo Brasil. São olhos que já estiveram do outro lado da porta da copa.

Comer as sobras do almoço de quem é servido; deixar seus filhos em casa, muitas vezes sozinhos, para cuidar o filho de outra pessoa; viver em um pequeno quarto quente, enquanto todos os outros cômodos da casa têm ar-condicionado; estar vulnerável ao assédio; ser “como da família” sem ser; entre tantas outras situações constrangedoras. Esta é a realidade sentida diariamente na pele pelos mais de 6,4 milhões de empregados domésticos no Brasil, número segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

A classe média brasileira foi para frente da telona, elogiou e criticou a diretora Anna Muylaert e a atriz e roteirista Regina Casé. Muitos artigos pularam em sua timeline falando sobre a incapacidade da classe média brasileira limpar sua própria sujeira. Do status social dado pela manutenção de uma trabalhadora doméstica em sua residência. Ou mesmo da perversidade da relação entre patrões e empregados domésticos. Mas quantas destas reflexões trouxeram mudanças nas vidas privadas?

A mensagem deixada pelo filme é uma provocação a parte de cima da pirâmide social do nosso país. A submissão provocada pelo trabalho doméstico é um resquício escravocrata muito cruel. Desumaniza o indivíduo, usurpando sua vida. Assim como nos permite questionar o modelo de trabalho dentro dos marcos de um estado democrático de direito. Pois aqui ainda vivemos onde cada um “nasce” com seu lugar destinado.

Minha felicidade é pertencer a uma geração que está reescrevendo esta história.

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