segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Assumir nossos crespos e afirmar a nossa identidade



 
O processo chamado de "transição capilar" refere-se a decisão de abandonar os processos químicos e deixar o cabelo crescer naturalmente. Pode ser um processo gradual ou radical, que é quando opta-se por cortar toda parte com química do cabelo.
Nós, mulheres negras, crescemos fora dos padrões de beleza valorizados no conjunto da sociedade. Nosso cabelo é descrito como "ruim", os traços do nosso rosto são tidos como feio e sobre o nosso corpo não preciso nem falar. Portanto, assumir nossa negritude é um ato político de valorização da nossa identidade, cultura e disputa dos padrões de beleza estabelecidos.
Obviamente isto não é novo, o movimento "Black Power" nasceu nos anos 60 nos Estados Unidos como um movimento de afirmação da cultura negra. De lá pra cá muita coisa mudou, mas as estruturas racializadas na sociedade permanecem iguais.
Fazia algum tempo que eu queria passar por este processo, mas sempre optava por continuar com os produtos químicos para que pudessem deixar meu cabelo com um melhor crescimento e aspecto. Até me dar conta que é um ciclo vicioso, tratar quimicamente, dar fragilidade aos fios e resultar em quebras. Nos últimos meses fiz a opção de cortar toda a parte com química e deixar os cabelos crescerem naturalmente. Não é um processo fácil, é necessário ter paciência com o tempo até que o cabelo possa estar com um tamanho satisfatório.
O sentimento que mais nutro neste processo é a sensação de liberdade, de poder assumir os fios e com eles  afirmar minha cultura e minha identidade!
Deixo aqui um poema da grande poetisa peruana Victoria Santa Cruz, "Me gritaron negra!", um poema que mostra a perversidade do racismo transformada em afirmação da identidade:


Me gritaram negra!

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Como sete anos?!
Não chegava nem a cinco!

De repente umas vozes na rua
me gritaram negra!

Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
"Sou por acaso negra?" - me disse
SIM!
"O que é isso, ser negra?"
Negra!
Eu não conhecia a verdade triste que isso ocultava.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus grossos lábios
e olhei apequenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi...
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava carregando às costas
minha carga pesarosa
E como pesava!
Alisei meu cabelo,
pus pó-de-arroz na cara,
e em minhas entranhas retumbava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia em que retrocedia, retrocedia e estava
           [ prestes a cair

Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!


E daí?
E daí?

Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Sou negra!

De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles
que para evitar - segundo eles -
que para evitarmos algum dissabor
Chamam os negros de gente de cor
E de que cor?!
NEGRO

E como soa lindo!
NEGRO
E olha esse ritmo!

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO

Por fim
Por fim compreendi
POR FIM
Ja não retrocedo
POR FIM
Avanço segura
POR FIM
E bendigo os céus porque quis Deus
que negro retinto fosse minha cor
E agora compreendi
POR FIM
Tenho a chave!

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

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