segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Era só mais um neguinho no ponto






Laura Sito
Estudante de Jornalismo UFRGS
Movimento Mudança
“...escolhe sempre o primeiro
negro pra passar na revista
pra passar na revista
todo camburão tem um pouco de navio negreiro...”
O Rappa


  Essa semana foi marcada por uma conjunção entre acontecimentos corriqueiros e excepcionais. O ápice foi à morte de um jovem negro com um tiro pelas costas que foi disparado por um policial militar. As circunstâncias ainda estão sendo investigadas. O crime ocorreu na Vila Buraco Quente, morro Santa Tereza, zona sul da capital. A indignação que tomou conta de sua comunidade fez este caso deixar o anonimato
  Vejo no meu dia a dia a realidade que naturaliza a morte violenta dos nossos jovens. Realidade que leva consigo os jovens negros como protagonistas de seus números em todo país.
Moro em uma comunidade da zona sul da capital, no bairro Cascata, uma região pobre e batalhadora que muito lutou para ter condições minimamente dignas com água potável, saneamento básico, transporte público e calçamento. Luta que permanece viva, hoje por mais vagas na educação infantil, escolas, por praças, espaços de lazer e paz. Nos últimos meses foram diversos os registros por aqui de homicídios de jovens. Quase que em seu absoluto por relação com o tráfico de drogas. Um ciclo vicioso de um ambiente onde os braços do Estado não chegam em sua plenitude.
  No Brasil de 2002 à 2011 o número de homicídios de jovens negros subiu de 79,9%, para 168,6%, segundo o Mapa da Violência de 2012; isso significa que a cada um jovem branco assinado, 2,7% jovens negros foram vítimas de homicídio. É disso que falamos quando afirmamos viver um estado de genocídio da juventude negra.
  O racismo é o cerne de nossa questão, provocando a partir dele diversas variáveis que compõe este cenário de genocídio da juventude negra. Associar a pobreza pura e simples não dá conta de conectar aos mecanismos de exclusão que o racismo produz. Pois brancos e negros, mesmo quando em condições economicamente similares, os negros aparecem em situação muito pior. Algo visível em alguns dados: 73% da população mais pobre é negra, 74,9% das pessoas analfabetas são negras, 62% das crianças fora da escola são negras, em média a renda dos negros é 40% menor que a dos brancos. O que acaba materializando que as desigualdades no país não podem ser vistas somente do prisma socioeconômico, mas também devem ser vista do prisma sociocultural e étnico-racial.
  O racismo institucional é uma mazela central deste nosso debate. A violência policial tem alvo certo nas periferias do Brasil, a cada 10 mortos por policiais, 7 são negros. Além da população negra “colorir” o sistema penitenciário, sendo negros 60% dos jovens presos; assim como no sistema socioeducativo.

  Portanto, não pode caber a nós o silêncio. Muitas são as possibilidades de medidas que podem combater o genocídio. Como por exemplo, dar fim aos autos de resistências, constituir uma nova política de drogas, reformulação das polícias e não reduzir a maioridade penal. Entre tantas outras ações que dever ocorrer concomitantemente. É preciso conter a morte dos nossos jovens, para reescrevermos a nossa história com mais dignidade e igualdade. Para isso é fundamental a responsabilização do Estado brasileiro, é preciso agir!