terça-feira, 30 de dezembro de 2014

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Assumir nossos crespos e afirmar a nossa identidade



 
O processo chamado de "transição capilar" refere-se a decisão de abandonar os processos químicos e deixar o cabelo crescer naturalmente. Pode ser um processo gradual ou radical, que é quando opta-se por cortar toda parte com química do cabelo.
Nós, mulheres negras, crescemos fora dos padrões de beleza valorizados no conjunto da sociedade. Nosso cabelo é descrito como "ruim", os traços do nosso rosto são tidos como feio e sobre o nosso corpo não preciso nem falar. Portanto, assumir nossa negritude é um ato político de valorização da nossa identidade, cultura e disputa dos padrões de beleza estabelecidos.
Obviamente isto não é novo, o movimento "Black Power" nasceu nos anos 60 nos Estados Unidos como um movimento de afirmação da cultura negra. De lá pra cá muita coisa mudou, mas as estruturas racializadas na sociedade permanecem iguais.
Fazia algum tempo que eu queria passar por este processo, mas sempre optava por continuar com os produtos químicos para que pudessem deixar meu cabelo com um melhor crescimento e aspecto. Até me dar conta que é um ciclo vicioso, tratar quimicamente, dar fragilidade aos fios e resultar em quebras. Nos últimos meses fiz a opção de cortar toda a parte com química e deixar os cabelos crescerem naturalmente. Não é um processo fácil, é necessário ter paciência com o tempo até que o cabelo possa estar com um tamanho satisfatório.
O sentimento que mais nutro neste processo é a sensação de liberdade, de poder assumir os fios e com eles  afirmar minha cultura e minha identidade!
Deixo aqui um poema da grande poetisa peruana Victoria Santa Cruz, "Me gritaron negra!", um poema que mostra a perversidade do racismo transformada em afirmação da identidade:


Me gritaram negra!

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Como sete anos?!
Não chegava nem a cinco!

De repente umas vozes na rua
me gritaram negra!

Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
"Sou por acaso negra?" - me disse
SIM!
"O que é isso, ser negra?"
Negra!
Eu não conhecia a verdade triste que isso ocultava.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus grossos lábios
e olhei apequenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi...
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava carregando às costas
minha carga pesarosa
E como pesava!
Alisei meu cabelo,
pus pó-de-arroz na cara,
e em minhas entranhas retumbava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Neeegra!
Até que um dia em que retrocedia, retrocedia e estava
           [ prestes a cair

Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!


E daí?
E daí?

Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra!
Negra
Negra!
Sou negra!

De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles
que para evitar - segundo eles -
que para evitarmos algum dissabor
Chamam os negros de gente de cor
E de que cor?!
NEGRO

E como soa lindo!
NEGRO
E olha esse ritmo!

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO

Por fim
Por fim compreendi
POR FIM
Ja não retrocedo
POR FIM
Avanço segura
POR FIM
E bendigo os céus porque quis Deus
que negro retinto fosse minha cor
E agora compreendi
POR FIM
Tenho a chave!

NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!

sábado, 21 de junho de 2014

O meu desafio em oPTar por um partido político




Acompanhando a caminhada pela implantação do sistema de cotas na UFRGS, em 2005, comecei a entender a complexidade da luta política. Nesta caminhada aprendi a ver quem são nossos inimigos e a importância da unidade em torno da luta por igualdade e justiça. Lá aprendi também a grandiosidade e a importância dos movimentos sociais, assim como a centralidade dos partidos políticos.

Enquanto vivenciava isso a crise iniciada na reforma da previdência, ampliada na saída de setores do PT para formar um novo partido, se tornava mais intensa com as denuncias do mensalão. Eram avassaladoras as contradições, ainda mais para alguém tão jovem.

Em meio a esse processo decidi ingressar no Colégio Júlio de Castilhos, o Julinho, lá minha vida foi traçada.

Quando cheguei no Julinho, em 2006, me deparei com o grêmio estudantil mais importante do estado sendo conduzido por estudantes ligados ao PP e PMDB. Algo completamente fora da natureza histórica do movimento estudantil do Julinho. Naquele mesmo ano tivemos eleições presidenciais e para os governos estaduais, reelegemos Lula com a força do povo. Mas no Rio Grande do Sul, por um “acidente” da direita gaúcha, Yeda se tornou governadora. Nós estudantes secundaristas já estávamos mobilizados, sabíamos que viria um processo de muito enfrentamento e assim foi.
No fim daquele ano tivemos a oportunidade de trocar a direção do grêmio estudantil, tivemos uma chapa ampla, mas perdemos as eleições.

As mobilizações em defesa da educação e a resistência à cartilha neoliberal do governo Yeda me faziam ter mais certeza da importância de se ter lado. Assim como ficava mais clara a importância de estarmos organizados coletivamente para mudar o mundo.

No ano seguinte, ano que me tornaria presidente do Grêmio do Julinho, fiz a opção de deixar ser apenas uma petista para me tornar do PT. Optei por me filiar a um projeto político que mudava o país, que organizava os trabalhadores e acolhia os movimentos sociais. Carregava comigo a certeza que não poderia estar em outro lugar!

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Pode uma jovem negra ser deputada?







Faz algum tempo tenho tido vontade de relatar aqui a experiência que estamos vivenciando, mas tenho tido pouco tempo para escrever. Alguns meses atrás decidimos que nossa organização (PT Amplo – tendência interna do PT) deveria ter uma candidatura capaz de dialogar com os diversos setores dos movimentos sociais, uma candidatura jovem, apresentando uma pauta política capaz de provocar debates fundamentais para o aprofundamento das mudanças promovidas pelo nosso projeto político. Quando falo nós, cito um coletivo que compreende a centralidade da disputa de valores na sociedade. 

Falando pode parecer simples, mas é uma tarefa ousada. Mas isso não é um problema, pois coragem é algo que realmente não nos falta. Ousamos porque não aceitamos dissociar o processo eleitoral dos nossos sonhos, pois a cada passo que damos somos desafiados a superar este modelo de sociedade. Para nós um mandato deve ser um instrumento, uma ferramenta para fazer as disputas necessárias. 

É inegável que nestes 12 anos os governos do PT tenham mudado a cara do Brasil. Vivemos em 2014 um outro país comparado ao que encontramos em 2002. Provavelmente muitos de vocês que estão lendo são frutos das políticas sociais que qualificaram radicalmente a qualidade de vida dos trabalhadores e trabalhadoras. 

Eu inclusive, minha mãe é empregada doméstica e criou suas duas filhas sendo mãe solteira. Ela teve nesta década a oportunidade de ver suas duas filhas entrando na Universidade pública.  Minha irmã, Luanda, já está concluindo seu doutorado na Unicamp (Campinas-SP) e eu estou na segunda parte do meu curso de jornalismo na UFRGS. 

Temos que reivincar com orgulho essa era de transformações, mas é fundamental que apresentemos uma nova agenda. É urgente debatermos o futuro! 

Por isso falamos de sonhos, porque é necessários rompermos a lógica da reprodução da ordem vigente, falamos em sonhos para não perdermos a nossa capacidade critica e contestadora que nos faz avançar. Para expressar isso, escolhemos uma jovem negra para disputar uma cadeira para Assembleia Legislativa do Rio Grande do sul, um estado que nunca teve uma mulher negra como deputada. 

Sabemos que o rosto do nosso projeto se assemelha ao de milhares de novos atores sociais impulsionados pela década de mudanças no Brasil. Portanto, é especialmente com estes que nos desafiamos a dialogar.

A caminhada da disputa eleitoral não é fácil, o poder econômico encolhe a disputa. Com isso acabamos tendo um parlamento tão monocromático, masculino e das classes sociais mais favorecidas. Mas para aqueles que se dispõe a mudar o mundo, o que é enfrentar esta disputa?

terça-feira, 29 de abril de 2014

Não, não somos macacos!



  Essa ofensa racista não pode ter uma resposta simplificada com o debate evolucionista. Pois é muito pouco para um dos xingamentos mais perversos que nós negros temos que escutar desde a nossa infância.

  Xingar de macaco é afirmar que os negros não tem direito a humanidade, que não pertencemos a este mundo. É nos igualar a um animal que apesar da semelhança humana, não é.

  Reafirmar que "todos são macacos" é invisibilizar o significado como um todo desta afirmação racista.

  Inclusive porque apenas afirmar que somos iguais não combate o racismo. Para enfrentá-lo salientar as nossas diferenças é fundamental, só assim fica perceptível a necessidade da igualdade de direitos.
  Não vou entrar aqui no debate Neymar, Luciano Hulk, golpe publicitário, etc. Porque tentar transformar a pauta do racismo no futebol em dinheiro não é estranho, pois em um mundo capitalista tudo vira dinheiro!

  Portanto, só me resta afirmar: não sou macaco, sou humana, quero respeito e igualdade!

quarta-feira, 26 de março de 2014

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

A força que limita o direito à terra





Nos últimos dias foi divulgada a gravação de uma Audiência Pública com agricultores que ocorreu em novembro, em Vicente Dutra (RS), onde os deputados gaúchos Luis Carlos Heinze (PP) e Alceu Moreira (PMDB), ao “aconselhar” os pequenos agricultores, disseminaram um discurso de ódio contra os povos indígenas, quilombolas e gays. Afirmaram que estes grupos compunham um conjunto de “tudo que não presta” e ainda convocaram os agricultores a auto-organizanizar milícias contra quilombolas e indígenas. Em outra entrevista, justificam em nome de uma “legítima defesa” de suas terras.
A gravidade das afirmações dos deputados é mais um caso que ajuda a montar um mosaico da intolerância no Brasil. Nas últimas semanas, todo o país testemunhou o caso do menino negro amarrado a um poste no aterro do Flamengo (RJ) e vem acompanhando a multiplicação desses casos. O interessante é ver como a ação desses “justiceiros” parece ecoar os mesmos princípios racistas que fomentam o “conselho” dos deputados.
É importante salientar a gravidade de esse discurso que motiva a formação de grupos de autodefesas partir de deputados. São posicionamentos que fogem à liberdade de expressão. Em um Estado democrático não podemos admitir que um deputado federal no uso de suas atribuições incite e organize ações de violência.
Mesmo sem ter a instituição de milícias rurais, já observamos uma guerra no contexto rural do país. Segundo dados do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), só no Mato Grosso do Sul foram assassinados 57% dos indígenas mortos no país na última década; justo um dos exemplos para os deputados de “auto-organização dos agricultores”. É esse tipo de “justiça” que queremos?
Os casos de violência são contínuos, contudo há dificuldade de publicizá-los devido ao monopólio da mídia no país. Isso turva uma realidade de violência muito maior do que vemos nos jornais. Mesmo assim, não será difícil lembrar-se de algum episódio de violência que conseguiu ser visibilizado, como os assassinatos de indígenas Guarani-kaiowá no MS, assassinato de líderes quilombolas no Pará e inclusive o atentado contra quilombolas dos Alpes, em Porto Alegre. Ao revisar os números reais desses episódios, parece que o “conselho” dos deputados não é uma prática nova, e está em pleno vigor em algumas regiões do país. E talvez se perguntarmos para esses povos tradicionais nos responderiam que estas “milícias” estiveram presentes desde o início da construção do país.
Parece que ao “conselho” de nossos deputados faltou um pouco de história. Não há justiça sem história, sem versões diferentes da história. Ao ouvir os senhores deputados incitar a violência, pode nos passar em branco os diversos atos de violência contra as populações negras e indígenas deste país, e seu reflexo nas instituições, expresso na morosidade dos processos das titulações de terras indígenas e quilombolas. Além da dificuldade pela pouca estruturação dos órgãos competentes pela titulação, como INCRA e Funai, também há questões políticas devido à forte articulação do agronegócio, de grandes empreendimentos econômicos, etc.
A pergunta que fica é: por que buscar acirrar o conflito entre pequenos agricultores e povos tradicionais, mas não meter a mão no câncer central da disputa pela terra, que é sua distribuição desigual? Nem todos os “conselhos” são o que parece.

*Laura Sito – Estudante de Jornalismo da UFRGS, Secretária Adjunta JPT/RS e Membro da Executiva Estadual e Diretório Nacional do PT

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O PT abrir mão da Comissão de Direitos Humanos é jogar suas bandeiras no lixo





   Está aberto o processo de negociação das comissões na Câmara dos Deputados, nas composições se evidenciam as prioridades de pautas política das bancadas. Após a atordoada gestão de Feliciano a frente da comissão de direitos humanos, onde ficou cristalizada a tamanha disputa que temos a travar na sociedade, os conservadores se articulam para se manter na comissão. O nome da vez é o conhecido de todos, grande defensor do regime militar entre outras barbaridades, Jair Bolsonaro (PP-RJ).

   O PT abrir mão de priorizar os Direitos Humanos, mais uma vez, é jogar no lixo suas bandeiras e seus valores. É dizer que as atrocidades que revoltam o país todos os dias, como o caso Amarildo, aumento no número de homicídio contra homossexuais, o extermínio da juventude negra, as questões dos povos tracionais, entre outros temas tem pouco valor e podem ser trocados.

   Não priorizar a indicação da presidência desta comissão é não compreender os limites claros que temos na promoção da igualdade no Brasil. O mais triste é que o PT tem entre seus deputados quadros históricos defensores dos direitos humanos com plenas condições de executar um belo trabalho na comissão.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Nota da Juventude do PT em apoio à greve dos rodoviários de Porto Alegre





A juventude do PT vem a publico demonstrar seu apoio à greve dos rodoviários de Porto Alegre! A bancada de vereadores do PT, em dialogo permanente com os RodoCUT e a JPT protocolou projetos que mudariam a cara do Transporte público na cidade, como a criação do Fundo Público de Transporte Urbano (FPTU), do Sistema Integrado de Bilhetagem de Transporte Urbano (SIBTU) e  instrumentos de transparência e controle social da gestão, além da reestruturação do Conselho Municipal dos Transportes.
Mesmo após as manifestações de Junho e Julho, que colocaram a pauta da Mobilidade Urbana e do Transporte Público no centro da discussão política, o governo Fortunati e sua base na câmara de vereadores se mostraram insensíveis à pauta, com promessas vagas de licitação que nunca se concretiza.
O ataque aos Trabalhadores da CARRIS, e dos três consórcios privados, que reúnem 12 empresas, é feito conjuntamente pela prefeitura, pelos empresários e pela imprensa, que insiste em exigir aumentos da tarifa para reajustar os salários, o que os dados do DIEESE demonstram ser uma falácia: A tarifa aumentou o dobro do salário nos últimos anos! Em 2013 a juventude gritou: “O motorista, o cobrador, me diz aí se seu salário aumentou”. A greve vem nos demonstrar a resposta dos Rodoviários: ”Não, não aumentou!”, Só o que aumenta é o lucro do empresário!

Juventude do Partido dos Trabalhadores de Porto Alegre

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Expondo o contraditório


Este vídeo mostra uma experiência de "rolezinho" em 2000, feito por uma comunidade a um shopping na zona sul do Rio.

Nele podemos ver de maneira nítida a barreira territorial que temos no país imposta pelo poder econômico.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A caça ao “Rolezinho” é o apartheid brasileiro




  Neste final de semana, 11, vimos mais uma cena de jovens sendo expulsos de forma violenta de um Shopping Center, desta vez foi em São Paulo. Após marcarem pela internet um evento chamado “rolezinho” dezenas de jovens, maioria da periferia, se encontraram no shopping JK Iguatemi. Porém acabaram “causando medo” nos lojistas e frequentadores.  Para conter a situação a administração resolveu chamar a polícia militar que retirou os jovens a cacetadas e balas de borracha.

  Os “rolezinhos” podem ser compreendidos como uma forma de protesto através da ocupação de espaço. Estes shoppings, alguns próximos às comunidades, são tomados por uma juventude que por sua vez vive em lugares que não contém espaços de lazer e cultura. A massificada mobilização demonstra a insatisfação. 

  Mesmo essa juventude, filha da nova classe trabalhadora, tendo acesso a bens de consumo expõe na ocupação de território o abismo social que temos no país.

  A criminalização destes jovens pela sua origem social, sua cor e sua cultura funk, assegurado pela justiça denotam um novo apartheid. Pois foi a justiça, tomada por uma compreensão elitista, quem permitiu que a entrada no shopping pudesse ser selecionada, logo restringindo o acesso aos pobres e negros. Estes jovens foram expulsos sem praticar nenhum ato de violência, sua simples presença já os tornava um perigo em potencial.

  É nesse cenário que vemos o quanto temos a caminhar para a promoção da igualdade racial, combatendo o racismo institucional que fere e mata todos os dias dezenas de jovens negros.